Os canalhas também envelhecem

Ele era um senhor de sessenta e poucos anos, simples e falador, provavelmente do interior do estado.

Ficava em uma mesinha sem computador ao lado da porta do departamento administrativo, onde eu ia de vez em quando resolver algumas pendências que envolviam meu próprio setor.

— Vocês só sabem ficar atrás desse computador aí, não sabem de nada — dizia. — Eu já caí de altura, na construção. Tenho o joelho ferrado e vocês nunca caíram de altura. Eu já caí de altura. Vocês não. Vocês não sabem de nada.

Geralmente eu relevava essas reclamações porque já vi esse tipo de comportamento no pessoal mais velho. Imagino que talvez aconteça quando se veem diante de novidades e tecnologias as quais não conseguem se adaptar, então acabam rejeitando tudo o que não entendem, com aquele discurso de “Na minha época não tinha essas facilidades que vocês tem hoje, seus molengas“, para não se sentirem inferiorizados.

E olha, eu até concordo um pouquinho, porque a gente está mesmo virando mesmo uma geração de molengas e acho que não conseguiremos passar para nossa descendência as espetaculares gambiarras de MacGyver, mas não acho que seja necessário tagarelar sobre isso durante todo o expediente, com ênfase em ofender os outros com adjetivos como “bundão“.

Mas eu relevei, poxa.
Um senhorzinho que trabalhou a vida inteira, que deve ter passado por tantas dificuldades e que já está de saco cheio, deveria poder extravasar, certo?

Certo?

Confesso que chegou a me irritar levemente algumas vezes, porque eu precisava de silêncio para desenvolver o trabalho sem erros, e as reclamações me desconcentravam, mas como uma das coisas que tenho trabalhado em minha vida é exercer o amor ao próximo, eu continuei relevando.

Então ele passou para aquele papo de “Eu trabalhei na Coca-Cola, vocês não trabalharam. Eu sei como fabrica a Coca-Cola, vocês não“, quando surgiu a primeira piadinha que me deixou em dúvida se eu devia mesmo continuar relevando ou tentar argumentar:

— Vocês sabem porquê a Coca-Cola faz mal? Antes era branca e não fazia, mas sabe que aconteceu? Caiu um negão lá dentro, daí ela ficou preta e começou a fazer mal para a saúde.

E veio logo emendada na segunda:

— […] É igual quando Deus foi criar o homem. O diabo viu que Deus falou: “Vem, Adão” e ficou com inveja e foi fazer seu próprio homem, mas não lembrava como era o nome que Deus tinha chamado, então quando terminou, disse: “Vem, Negão“.

E por favor, não venha me dizer que é mimimi, como costumo ouvir por aí, que tudo é preconceito e que não se pode mais nem fazer uma piada, porque associar a cor da pele a algo mal, “ao diabo”, não é apenas uma piadinha inocente. Tem muito mais coisa aí.

Nesse ponto, eu parei de relevar, e muito educadamente fui explicando o porque não era legal fazer aqueles tipos de piada, ao que ele rebateu que antigamente não tinha essa frescura e que agora qualquer coisinha podia até dar cadeia. Familiar?

Não vou transcrever toda a conversa, mas ele pareceu entender o recado e eu, inocente, pensei que talvez isso fosse apenas mais um reflexo dessa sociedade que muitas vezes nos faz reproduzir discursos preconceituosos sem pensar.

Me julguem. Realmente sou alguém que prefere depositar um pouquinho de fé na humanidade, mas já dizia Jeremias 17:5, com o perdão da licença poética: “Maldito o homem que confia no homem“.

No dia seguinte, mais uma dose que me fez perceber meu inocente e juvenil equívoco:

— Pra quê que aquela mulher quer fazer reunião? Se tinha homem aí e não resolvia nada, agora que tem mulher, vai é piorar! Ela que não venha encher o saco que dou-lhe um tapa que ela vai parar lá longe! Ela é baiana, não é? Baiano comigo não tem vez. Se ver eu perto de um baiano é porque vai ter briga. Seguiu-se então várias outras frases machistas e de preconceito regional, mas pouparei quem lê.

Pode parecer exagero, tudo isso junto de uma só vez, vindo de uma só pessoa, mas infelizmente é real.

Há uma linha tênue entre reproduzir discurso preconceituoso por ignorância — sim, isso existe — com ser de fato um babaca arrogante, independente da idade ou escolaridade (e me perdoem, mas é difícil exercer o amor o tempo todo).

Depois que coloquei meu ponto de vista e antes de ir embora, o informei que meu esposo é negro, que sou filha de baiano e neta de cearense. Não sei se minhas palavras vão ajudar em alguma coisa, se aquela mente um dia irá se libertar, mas de alguma forma me fiz ouvir.

Muitas vezes me calei por achar que a discussão não valia a pena e aos poucos fui perdendo minha voz, minha identidade (e veja bem, não estou falando sobre debates histéricos com haters em redes sociais, que isso é esforço inútil, mesmo), mas percebi que se antigamente não tinha mimimi, se ninguém falava por causa dessas piadinhas, hoje, graças a Deus, há quem fale.

Então, não releve.
Descative.

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