Redenção

Quando abriu os olhos, entrou em desespero.
Escuridão.

Tentou levantar-se e tatear pelo breu, mas seu corpo não obedeceu.
Cabeça, tronco, membros…
Todos paralisados, capturados por correntes estreitas, que machucavam e prendiam a circulação.

Gritou por socorro.
Seu próprio clamor ecoou junto a milhares de outros gritos, em uma dissonância lúgubre.

Não havia ajuda.

Somente a agonia sufocante.
A desesperança. A ideia de morte e separação.

Lentamente, perdeu a noção de tudo.
Do espaço. De seu corpo. Da própria respiração. Da vida.
Sua consciência caia no vazio, angustiada e sem razão.

A totalidade do nada.

Nunca soube  apreciar a luz das estrelas porque nunca haviam lhe pintado uma noite escura o suficiente, nem alegrou-se com o som do tilintar das chaves porque nunca percebeu-se em uma prisão.

Entendeu que a liberdade que conheceu era ilusória.
Era feito de suas escolhas e suas escolhas o escravizaram.

Por isso estava ali.

E como um peixe que não sabe que está molhado, porque tudo à sua volta é água, ignorava a própria natureza e afogava-se na própria cegueira.

Lentamente foi engolido, e o torpor apoderou-se de toda sua existência.
O fez indiferente à própria perdição.

Mas agora havia entendido.

Descobriu-se vil.
Percebeu-se nu.

Escória de carne putrefata, por quem a criação agradeceria por se livrar.

Indigno.

Exultou quando acenderam-se as luzes e os cadeados foram destrancados.

Livre, verdadeiramente viveu.

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3 comentários

  1. Que texto intenso!!!
    Me lembrou profundamente o Mito platônico da Caverna. “Nunca soube apreciar a luz das estrelas porque nunca haviam lhe pintado uma noite escura o suficiente, nem alegrou-se com o som do tilintar das chaves porque nunca percebeu-se em uma prisão.” é um trecho poderoso, orgânico e vivo. Realmente, adorei: parece carne pura, escrita viva.

    Amei!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Poxa, que honra você mais uma vez por aqui.
      Obrigada pela opinião. Vindo de você, me deixa até acreditando que tá bom mesmo. hahahaha

      Embora realmente lembre o mito da caverna, minha inspiração original foi outra.
      Eu não costumo publicar meus textos mais intensos, mas esse eu precisei porque é muitíssimo pessoal.
      Fico feliz que curtiu. :3

      Curtir

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